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2.º Festival Terras sem Sombra
Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo 2004
de 24 de Julho a 10 de Outubro de 2004
Modelos Eruditos e Tradições Populares

início

Abertura
Paulo Cunha e Silva

Director do Instituto das Artes

Neste segundo ano consecutivo de realização do Festival "Terras sem Sombra" saúdo, em nome do Instituto das Artes e em meu nome pessoal as entidades envolvidas na organização deste evento, bem como toda a equipa responsável pela sua concretização. É particularmente gratificante verificar como tem sido possível a união de vontades em torno de um projecto que tem vindo a implicar investigação, inventariação, levantamentos e organização de intervenções artísticas directas, coordenadas pelo Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja e pela Associação "Arte das Musas", em parcerias sustentadas com autarquias e outras entidades públicas e privadas. A atribuição do estatuto de Superior Interesse Cultural por parte do ministério da Cultura, bem como a concessão do apoio financeiro do Instituto das Artes, configuram garantias de reconhecimento do mérito músico-cultural desta iniciativa. Características fundamentais do projecto em presença, tais como itinerância em regiões e localidades altamente carenciadas, com a decorrente sensibilização de novos públicos, aproveitamento e revivificação de espaços religiosos de interesse histórico e patrimonial, diversificação de programas musicais desde a prática gregoriana até à produção original dos nossos dias, e finalmente a divulgação de obras do repertório europeu por agrupamentos exclusivamente portugueses, consubstanciam uma iniciativa de elevado mérito artístico no panorama anual dos festivais de música do nosso país.
Globalmente, considero tratar-se de uma programação equilibrada e criteriosamente elaborada, à qual não falta a homenagem a um dos grandes nomes da criação musical portuguesa: refiro-me, obviamente, à comemoração do tricentésimo aniversário do nascimento de Carlos Seixas.
Pelos motivos invocados, desejo felicitar a organização deste festival, fazendo votos pelo êxito da segunda edição de “Terras sem Sombra”.

O Tempo e o Modo
José António Falcão

Director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja

A Diocese de Beja tem vindo a travar, sob a orientação do Departamento do Património Histórico e Artístico, uma luta para garantir a sobrevivência de uma importante parcela da memória do Baixo Alentejo que abrange não só algumas centenas de monumentos e sítios de particular significado religioso, mas também um universo de manifestações culturais muito diferenciadas, desde os fundos documentais até à cultura oral. Luta pertinaz e acidentada, dela tem dependido, em larga medida, a capacidade de manter viva e actuante no tecido social boa parte da nossa identidade colectiva, ameaçada no seu âmago por vários factores. O primeiro deles é o terrível fenómeno da rarefacção humana que se faz sentir um pouco por todo o interior e atinge o paroxismo nas terras do Sul, com o desaparecimento praticamente integral de diversas comunidades de pequena e média dimensão. Todavia, há outros problemas, nomeadamente os que se prendem com a volubilidade das medidas de desenvolvimento local e o próprio embaraço em acompanhar as mudanças inculcadas pela Europa rica e centrífuga. Ao êxodo físico do passado parece ter sucedido uma espécie de êxodo anímico, também letal, que conduz ao esquecimento das raízes.
O velho Alentejo, como o velho Portugal, está quase exangue. Morre-nos aos pedaços nas mãos, numa agonia lenta, discreta e silenciosa, mas nem por isso menos cruel. Não se vislumbra ainda com nitidez o que germinará das suas cinzas. Porém, a grandeza da alma meridional, com a peculiar maneira de ser e de sentir que a caracteriza, é um tesouro que não pode ser esquecido, nem vilipendiado. No contexto de rápida mutação imposta a partir do exterior em que estamos envolvidos e não podemos recusar, importa garantir que os traços fundamentais da nossa maneira de ser e de sentir – a nossa cultura, no sentido mais nobre da palavra – não deixarão indiferentes as novas gerações. Esta é uma responsabilidade histórica, infelizmente nem sempre entendida em toda a sua subtileza, que exige muito de nós. E é também, para a Igreja, ela própria a braços com severas crises, uma questão pastoral de primeira ordem.
Na medida das suas possibilidades, dramaticamente sempre mais escassas do que o necessário, a Diocese de Beja tem procurado estar atenta aos “sinais dos tempos”. Desde a instituição, em 8 de Junho de 1984, do Departamento do Património Histórico e Artístico, que a equipa técnica por ele formada desenvolve um ingente trabalho, disperso por um território com cerca de 12 300 km2, que se estende da fachada atlântica até à raia com a Andaluzia e abarca todo o distrito de Beja e a zona meridional do distrito de Setúbal (Grândola, Santiago do Cacém, Sines). Esta tarefa começou pela inventariação dos bens culturais de carácter religioso e repercutiu-se depois numa multiplicidade de medidas de conservação, restauro, sensibilização, divulgação, promoção, animação... Após vinte anos de presença ininterrupta no terreno, cumpre reconhecer que houve muitas coisas que evoluíram na relação das nossas comunidades com a sua identidade cultural e eclesial. As populações olham com evidente satisfação para este trabalho e estão orgulhosas pelo esforço realizado no sentido da promoção de valores que lhes são gratíssimos. No entanto, ainda é cedo para que alguém se possa sentar à sombra, a colher os frutos já semeados.
Esperam o Baixo Alentejo, durante as próximas décadas, reptos muito importantes.
De facto, o nosso futuro depende, em larga medida, da capacidade de inverter o deficit demográfico e de tirar partido de todo um leque de potencialidades hoje quase inaproveitadas, o que pressupõe a construção de alternativas de desenvolvimento em que o património natural e cultural irão ter cada vez mais relevância. Num país em que a qualidade de vida parece afastar-se das suas raízes, o Baixo Alentejo tem finalmente o direito e o dever de afirmar uma estratégia própria, coerente com os seus recursos e a sua história, que lhe permita ser um importante eixo de equilíbrio da geografia nacional. Esta estratégia irá exigir que nos preparemos para, entre outras provas, acolher fluxos significativos de visitantes, algo que não se improvisa, especialmente quando está em causa o desejo de evitar a massificação (fácil, mas vulnerável) e de promover a redescoberta dos sinais de identidade.
Com o apoio do Estado, dos municípios, de algumas empresas e, sobretudo, das forças vivas que actuam in situ, a Diocese de Beja vem trabalhando arduamente nesse sentido, com a noção exacta de que a “diferença” da nossa região lhe garante um capital valioso. Mas não se pode esquecer que, numa área periférica e empobrecida, como a nossa, em que o acesso à cultura é ainda, para muitos, uma miragem, isto significa uma responsabilidade ainda maior, em que deve pesar a preocupação de corrigir assimetrias tão gritantes que maculam o país. Nós, os alentejanos, não queremos viver num museu, nem queremos continuar a ser um laboratório social onde se fabricam genéricos de duvidosa utilidade. Face ao gigantismo de um mundo global pautado pelo diktat das regras do mercado, cumpre-nos preservar e dar a conhecer o essencial da fisionomia da cultura da nossa região, verdadeira encruzilhada de caminhos entre o Norte e o Sul, o Ocidente e o Oriente. A par da conquista de soluções que visem um crescimento sustentável, essa capacidade de afirmação constitui o grande desafio para o porvir das sociedades meridionais. Um desafio que se ganha ou perde, antes de mais, nas trincheiras da identidade.
A consciência de que o excepcional património religioso do Baixo Alentejo só poderá perdurar se continuar vivo e for útil levou o Departamento do Património Histórico e Artístico a desenhar uma estratégia de afirmação dos valores sob a sua tutela que dão corpo à tessitura mais profunda da nossa cultura, entendendo o território – na diversidade que a natureza lhe imprimiu e a história ajudou a moldar – como o lugar mais adequado para a fruição desses valores. Conta-se entre eles, desde cedo, o interesse pela música sacra, fenómeno estreitamente ligado, ao princípio, a uma funcionalidade litúrgica, mas que irradiou há muito do ambiente das igrejas conventuais e monásticas e das colegiadas para a esfera da sensibilidade popular. Esta herança plurissecular, ainda hoje presente no quotidiano, é uma das nossas afinidades electivas. Foi a pensar nela que se deu início ao projecto do Festival Terras sem Sombra. A edição de 2003 desta iniciativa revelou-se tão inesperadamente enriquecedora, enchendo até à porta praticamente todas as igrejas históricas abrangidas pela sua itinerância, que o Instituto das Artes do Ministério da Cultura nos convidou a prosseguir. Fazemo-lo com a firme consciência de quem partilha algo que lhe é muito caro.

Apresentação
Filipe Faria

Director Artístico do Festival

Depois do sucesso da primeira edição do Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo “Terras sem Sombra” em 2003, a Arte das Musas promove a segunda edição no verão de 2004. O II Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo propõe um conjunto de sete concertos de sete dos melhores ensembles de música erudita nacionais e uma conferência proferida por Rui Vieira Nery. O conceito subjacente à programação desta segunda edição procura apresentar a relação entre a música sacro-erudita – aquela que tem lugar dentro da igreja, muitas vezes no contexto litúrgico – e a música sacro-popular – música de temática religiosa e devocional, muitas vezes interpretada no adro da igreja e nas rotas de peregrinação. No fundo, a relação entre os modelos eruditos e as tradições populares no contexto da música sacra/devocional.
Este projecto itinerante, que percorre sete localidades do Baixo Alentejo, com o objectivo de permitir um acesso mais generalizado à iniciativa por parte das populações, apresenta-se contextualizado por um projecto de animação e valorização do património com o mesmo nome – Terras Sem Sombra, do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, parceiro fundamental deste projecto. Esta parceria decorre da necessidade de criação de novos pólos culturais descentralizados que possam levar a arte, a este nível, às populações, aos seus espaços e hábitos, fomentando, desta forma, um movimento socio-cultural que possa permitir o desenvolvimento de novos públicos para a música erudita.
Parcialmente financiado pelo Instituto das Artes e declarado pelo Ministério da Cultura como de Superior Interesse Cultural, a segunda edição do Festival decorrerá entre 24 de Julho e 10 de Outubro de 2004 com um conjunto de sete concertos de excepcional qualidade. Destacamos a presença do Coro Gulbenkian no concerto de abertura do Festival na temporada em que comemora 40 anos de actividade

 

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