1.º Festival Terras sem Sombra
Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo 2003 de 8 de Novembro a 21 de Dezembro de 2003 A Voz na Música Antiga início
Abertura
Paulo Cunha e Silva
Director do Instituto das Artes
Neste início de funções enquanto Presidente do recém-criado Instituto das Artes, venho por este meio saudar vivamente a organização do I Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo, correspondendo desta forma ao honroso convite da Diocese de Beja e da Arte das Musas, as quais em boa hora tomaram a decisão de organizar a primeira edição de uma iniciativa de relevância músico-cultural na região.
Cumprindo um objectivo primordial de descentralização numa zona tradicionalmente carenciada do interior baixo-alentejano, embora abrangendo também localidades situadas no litoral igualmente afastadas dos grandes centros, este Festival preenche indubitavelmente uma lacuna grave no panorama musical português, e mais particularmente na sua região geográfica de inserção e intervenção.
Assim, em nome do Instituto das Artes, que apoiou este primeiro Festival, apostando na qualidade do projecto, e em meu nome pessoal, faço votos pela continuidade da iniciativa que poderá seguramente criar novos hábitos de audição e fruição musicais junto das comunidades radicadas nestas regiões do país.
A Voz que Clama contra o Deserto
José António Falcão
Director do Dep. do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja
O Baixo Alentejo transformou-se durante as últimas décadas, à semelhança do que sucedeu um pouco por todo o interior do país, num campo de batalha contra um inimigo pertinaz: a desertificação humana. Este problema está a pôr em causa, ano após ano, a continuidade de dezenas de povoações, desde simples lugares - como os tradicionais montes que povoam a paisagem meridional - até vilas e aldeias históricas. Os sintomas negativos fazem-se sentir, com particular acutilância, no âmbito da salvaguarda do património cultural, designadamente no que diz respeito às igrejas históricas, que constituem sem dúvida o sector mais extenso, mais variado e também mais ameaçado do universo patrimonial da região.
A agonia do mundo rural condenou ao abandono muitos monumentos religiosos, nomeadamente pequenos santuários localizados em pleno campo. Contam-se às dezenas os edifícios que, na actualidade, não têm praticamente nenhum uso, permanecendo encerrados durante todo o ano. Em alguns casos já nem sequer se celebra a festa do seu padroeiro, outrora uma referência no nosso mapa religioso. Nos núcleos urbanos, a “terciarização” dos centros históricos, decorrente da transferência das populações residentes para as periferias, tornou dispensáveis outras igrejas, obrigando a repensar a organização pastoral. Em suma, existem mais cem edifícios “redundantes”, dos quais pelo menos metade já perderam a sua ligação umbilical à comunidade e se encontram órfãos de cuidados elementares de conservação.
Em algumas dioceses que enfrentam dificuldades similares, optou-se deliberadamente por retirar desses edifícios em risco não só o acervo artístico, transferindo-o para outras igrejas, mas também todos os elementos reaproveitáveis, desde os azulejos até às cantarias. Esventrados e mutilados, os monumentos que sofreram esta medida bárbara são hoje carcaças entregues aos avatares do destino. Roubaram-lhes quase tudo, mas o “espírito do lugar” permanece, como uma interrogação acusadora para aqueles que cruzaram os braços e aceitaram a solução mais fácil. Com o progressivo desaparecimento destas referências, as populações viram apagar-se um derradeiro sinal de esperança, como se o último reduto tivesse cedido ao desespero.
Beja, considerada a diocese mais pobre do país, procura resistir, com os precários meios ao seu alcance, às consequências da rarefacção demográfica. Existe a firme consciência de que é necessário assegurar a salvaguarda de uma herança cultural única. Trata-se de garantir a sobrevivência da identidade que foi consolidada ao longo de séculos e representa, afinal, o nosso tesouro mais precioso. À luz destas convicções, foi delineado um programa de intervenção que, com o envolvimento das comunidades locais e em parceria com o Estado, os municípios e outras instituições presentes no terreno, tem permitido ir ao encontro de lacunas sentidas desde há muito.
Primeiro, começou-se pelo inventário dos bens culturais da Igreja, tarefa primordial, já que sem os conhecimentos que dela advêm se torna impossível desenvolver qualquer medida de gestão eficaz. Depois, iniciou-se um programa sistemático de intervenções de conservação e restauro, tendo em vista sobretudo as grandes prioridades nesta área, o que permitiu recuperar edifícios e obras de arte em risco. Finalmente, apostou-se numa estratégia de fundo para a divulgação das referências fundamentais da “memória religiosa da região”, valorizando o diálogo do Cristianismo com as duas outras Religiões do Livro, o Judaísmo e o Islamismo, que também deixaram marcas profundas neste território.
A defesa dos monumentos religiosos do Baixo Alentejo continuará, durante muitos anos, uma questão em aberto. Mas sabe-se já que ela só poderá ser concretizada se o património, deixando de constituir apenas um ónus pesado, como aconteceu até aqui, se transformar numa mais-valia, ao serviço do desenvolvimento integral da região. Isto passa pelo funcionamento de todo um conjunto de infra-estruturas cujos alicerces estão lançados, como a Rede Diocesana de Museus (com pólos em Beja, Castro Verde, Cuba, Moura, Santiago do Cacém e Sines) e os Itinerários do Património da Diocese de Beja. A realização do 1.º Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo, iniciativa culminante do Projecto “Terras sem Sombra”, representa um passo decisivo nesta caminhada, sendo também a melhor homenagem que podemos prestar à riquíssima tradição musical que irradiou a partir das nossas igrejas.
Apresentação
Filipe Faria
Director Artístico do Festival
A Arte das Musas tem o prazer de apresentar o 1.º Festival “Terras sem Sombra” de Música Sacra do Baixo Alentejo o qual propõe um conjunto de oito concertos de oito ensembles de música erudita nacionais e decorre entre 8 de Novembro e 21 de Dezembro de 2003 inspirado pelo tema genérico A Voz na Música Antiga. O Festival é itinerante no sentido de possibilitar um acesso mais generalizado à iniciativa por parte das populações e apresenta-se contextualizado por um projecto de animação e valorização do património com o mesmo nome - Terras sem Sombra - do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, parceiro fundamental deste projecto. Esta parceria decorre da necessidade de criação de novos pólos culturais descentralizados que possam levar a arte às populações, aos seus espaços e hábitos, fomentando, desta forma, um movimento sócio-cultural que possa permitir o desenvolvimento de novos públicos para a música erudita e para a música antiga em particular. Do Baixo Alentejo Litoral ao Interior.
Este Festival, parcialmente financiado pelo Instituto das Artes, antigo Instituto Português das Artes do Espectáculo, ao abrigo dos Concursos de Apoios às Actividades Culturais para 2003, foi declarado pelo Ministério da Cultura como de Superior Interesse Cultural e procura incentivar a formação de novos públicos através de uma proposta descentralizada em territórios e espaços do país carenciados de propostas culturais de âmbito nacional, fomentando, simultaneamente, o contacto com os espaços patrimoniais onde irá decorrer a iniciativa, de modo a potenciar um novo modo de fruição e uma nova motivação cultural na preservação e valorização do património histórico e artístico nacional.
Uma Experiência Memorável
Rui Vieira Nery
Universidade de Évora
Um dos dramas mais terríveis da nossa vida cultural do século XX foi sem dúvida a negação sistemática do acesso dos portugueses à fruição e criação artísticas, como parte da sua plena cidadania. Quer isto dizer que a esmagadora maioria do povo português, num período em que por toda a Europa se vivia o processo precisamente inverso, permaneceu privada de uma oferta cultural e artística essencial para a qualificação do seu quotidiano individual e da sua integração cívica: privada de exposições, de concertos, de espectáculos de teatro e de bailado, ou mesmo da simples presença de uma livraria no espaço alargado da sua residência.
Nas últimas três décadas realizaram-se indiscutivelmente progressos consideráveis neste domínio, começando logo com a consagração do direito do acesso à Cultura no texto da Constituição de 1976 e prosseguindo com um conjunto de iniciativas, promovidas ora pelo Estado Central ora já pelas autarquias, no sentido da passagem à prática desse direito constitucional. Neste último âmbito, em particular, é interessante verificar como, assim que passámos da fase mais premente da satisfação de necessidades básicas da electrificação, do saneamento básico e dos acessos, as próprias populações colocaram como prioridades ao Poder Local a construção de bibliotecas municipais, de auditórios, de salas de espectáculos, de galerias de exposições ou de centros culturais, que por isso mesmo foram surgindo numa rede crescente de infraestruturas descentralizadas que não tem hoje qualquer comparação com a que existia na década de 1970.
Mas os edifícios e os equipamentos são condição necessária mas não suficiente para o estabelecimento de uma vida cultural efectiva. É preciso garantir aos cidadãos o contacto com o momento imediato da criação artística, tal este é produzido pelos actores, pelos bailarinos, pelos músicos, e é necessário que este contacto não seja meramente episódico mas que, pelo contrário, se torne numa realidade próxima e regular. E esta oferta artística ao vivo é tanto mais importante quanto nos últimos anos se vem expandindo a frequência das escolas de Artes em todo o País, de onde sai em cada ano um número crescente de jovens artistas qualificados, prontos para darem aos seus concidadãos o melhor do seu talento e da sua formação.
Estamos, a esse nível, em manifesto período de vacas magras, com a crise das economias ocidentais a pôr um pouco por toda a parte em causa a viabilidade desta vivência artística activa e participada, e a procurar propor em vez dela a massificação medíocre das chamadas indústrias “culturais”, que estimulam valores diametralmente opostos: não o desafio ao espírito crítico e criativo mas o apelo ao consumo passivo e alienante; não a riqueza inesgotável das tendências estéticas mais variadas mas uma falsa escolha entre um leque reduzido de clichês pobres e feitos em série; não as interrogações mais nobres, mas as falsas certezas mais embrutecedoras.
Num contexto de recessão de meios e de demissionismo ético como este é entusiasmante ver surgir uma iniciativa como a do I Festival de Música Sacra do Baixo Alentejo, a oferecer a uma região tradicionalmente excluída da oferta musical de qualidade um panorama de propostas artísticas diversificadas, exigentes, protagonizadas por grupos a que pertencem alguns dos expoentes mais prometedores da nova geração de músicos portugueses, além dos músicos convidados de outros países que garantem o indispensável diálogo internacional neste domínio.
E é também de realçar esta coragem de propor para este festival uma temática de Arte Sacra. Por um lado porque salienta o facto histórico inegável mas por vezes convenientemente escamoteado de que ao longo dos séculos muito do melhor da criação artística ocidental esteve associado à prática religiosa. Depois, porque vem sublinhar o papel que uma dimensão espiritual enriquecida, qualquer que seja o seu eventual enquadramento doutrinal concreto, não pode deixar de trazer à nossa existência quotidiana e à reafirmação da nossa própria dignidade, individual e colectiva, de pessoas que se recusam a ser transformadas em meros consumidores.
Quero saudar convictamente todos os responsáveis artísticos, músicos participantes, promotores institucionais e patrocinadores desta iniciativa, e fazer votos de que ela se venha a enraizar e constituir um pilar regular da vida cultural do Baixo Alentejo. E quero desejar a todos os que vierem a assistir a estes concertos uma experiência memorável de participação no ritual mágico de renovação da Vida que é sempre o momento da criação musical
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